Tente ser uma mulher por 62 segundos

Manterrupting, Mansplaining, Bropriating, Gaslighting. O terrorismo machista

Você sabia que 62 segundos é o máximo de tempo que uma mulher consegue falar sem ser interrompida?

O machismo está mais enraizado do que imaginávamos, aparentemente alguns homens NÃO se dão conta do que fazem, nem sempre é de propósito. Muitos apoiam as causas femininas, admiram mulheres que estejam fazendo isso, curtem demais esse movimento, até mesmo comentam e parabenizam, mas ainda assim existem resquícios machistas em seus comportamentos.

Esse mesmo homem que apoia nossas causas e usa camisetas de #grlpwr é o mesmo que ainda senta no sofá depois do almoço enquanto sua namorada, mãe, tia, etc…. lava a louça. É o mesmo homem que pergunta para a esposa: “Quer ajuda?”… Oi?

É como se estivesse no programa mental do homem agir dessa maneira, vendo a mulher como um ser para tarefas menos estratégicas. Mesmo que inconscientemente.

No mundo corporativo isso já foi detectado, por isso existem programas de diversidade organizados pelas empresas para apoiar as mulheres, dar incentivos e etc… Mas o verdadeiro terror está nas entrelinhas, está no não dito, muitas vezes difícil de quantificar e exemplificar.

A mulher precisa ser perfeita em defender seu ponto de vista, pois será interrompida pelo menos 15 vezes até a conclusão de sua linha de raciocínio. Se ela não tiver uma oratória incrível, sairá de uma reunião sem ser levada a sério e provavelmente um homem presente nessa mesma reunião, reafirmará e amplificará o que ela acabou de dizer e levará o crédito por isso.

Não é de se surpreender que mulheres gastam muito mais dinheiro com autoconhecimento, coaching, cursos de oratória, de liderança, etc. Os homens tentam atingir poder e status em seus diálogos, enquanto mulheres buscam mais conexões e coerências em suas falas. 

Em momentos de inúmeras interrupções que causam tentativas constantes de manter o raciocínio e o foco de onde querem chegar; mulheres admitem elevar o tom de voz e ficar na defensiva, pois se sentem desafiadas. Na verdade, elas se sentem desconfortáveis diante de conflitos e geralmente depois de uma situação como essa, levam um saco pesado de culpa e baixa autoestima pra casa.

Ideias fantásticas vêm de mentes femininas, o mundo precisa ouvir mais as mulheres!

Um estudo realizado em 2014 na Universidade de George Washington (EUA) e liderado por Adrienne B. Hancock, pesquisadora de comunicação e gênero, constatou que mulheres foram 2,1 vezes mais interrompidas por homens em conversas de três minutos.

Mais do que isso…

O estudo mostrou que mulheres também são mais interrompidas por outras mulheres. Quando falavam com uma interlocutora, elas interrompiam até 2,9 vezes. Mas mulheres só interrompiam homens em média apenas uma vez.

Manterrupting, bropriating, gaslighting e mansplaining são alguns dos termos criados para sinalizar o machismo nas relações e qualificar o comportamento masculino em relação a uma mulher em diferentes situações. Ao saber do significado, fica mais fácil que homens e mulheres conscientes se articulem para evitar situações frequentes pelas quais muitas mulheres passam.

Manterrupting

Quando um homem interrompe constantemente uma mulher, de maneira desnecessária, não permitindo que ela consiga concluir sua frase.

Mansplaining

Quando um homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio a uma mulher, de forma didática, como se ela não fosse capaz de entender. O termo é uma junção de “man” (homem) e “explaining” (explicar).

Bropriating

Quando um homem se apropria da mesma ideia já expressa por uma mulher, levando os créditos por ela. O termo é uma junção de “bro” (de brother, irmão, mano) e “appropriating” (apropriação). É algo que acontece muito em reuniões.

Gaslighting

Gaslighting (derivado do termo inglês Gaslight, ‘a luz [inconstante] do candeeiro a gás’) é um dos tipos de abuso psicológico que leva a mulher a achar que enlouqueceu ou está equivocada sobre um assunto, sendo que está originalmente certa. É um jeito de fazer a mulher duvidar do seu senso de percepção, raciocínio, memórias e sanidade.  No dia a dia, algumas frases são características deste tipo de comportamento: “Você está exagerando”; “Pare de surtar”; “Não aceita nem uma brincadeira?”; “Você está louca”; entre outras. É um comportamento que afeta a todos, mas as mulheres são culturalmente vítimas mais fáceis.

Mulheres são ensinadas a ficar caladas e sorrir quando discordam. Se uma mulher questiona e não concorda a causa é TPM, instabilidade emocional, agressividade ou insubordinação.

Homens foram ensinados a liderar e falar, e as mulheres foram ensinadas a ouvir e obedecer. É um desaforo para um homem ser contrariado por uma mulher.

Pensando nisso, algumas soluções surgiram para nos ajudar e uma delas foi o aplicativo, chamado Woman Interrupted, que vem chamando atenção da mídia internacional porque reflete um debate que vinha ganhando força nas redes sociais, principalmente durante a campanha presidencial nos Estados Unidos em 2016. Hilary Clinton, em um dos debates, foi interrompida 51 vezes por Donald Trump durante seu tempo de fala.

Algumas outras estratégias:

A autora do livro Feminist Fight Club: A Survival Manual for a Sexist Workplace, Jessica Bennett tem alguns conselhos para mulheres que desejam fugir do “manterrupting” e se fazer ouvidas.

Um deles é continuar falando até quem te interrompeu parar de falar. Outro é se debruçar, literalmente, sobre a mesa, colocando os cotovelos sobre ela, porque pesquisas mostram que isso passa a impressão de autoridade e faz com que as pessoas sejam menos interrompidas.

E a minha estratégia favorita: interromper quem está interrompendo. É só dizer: “Então, você pode deixar ela terminar?”

By Maria Mattos